domingo, 3 de abril de 2011
Frutas negras
- Do que é que você está falando?
- Lá! - e apontou as jabuticabas.
- E daí? Jabuticabas brilhantes, legal...
- Não é possível que você não sabe do que eu estou falando! - dessa vez ele fazia gestos frenéticos com as mãos.
- Não, não sei do que vc está falando. E será que você podia parar com isso? Já era para estarmos em casa. Não quero ter que martirizar meus joelhos outra vez.- disse Ana em um tom desdenhoso.
- Mas, Ana, olhe aquelas jabuticabas e me diga o que você vê.
- Moleque atrevido! São só jabuticabas, normais, como quaisquer outras.
- Não, não são - retorquiu Pedro.
- Ah é? Então me diga o que têm de mais, as jabuticabas...
- Elas têm um portal, cada uma. Eles nos levam para um mundo extraordinário.
- Você anda imaginando muitas coisas demais. Já devia ter amadurecido essas ideias. Você não é mais tão criança assim.
- E você devia acreditar mais em mim. Como sendo mais velha, deve saber que crianças da minha idade não mentem. - disse-lhe, amarrando a voz - . Já que é tão velha, como assim diz.
- Você é muito atrevido. Não devia dizer essas coisas à sua irmã mais velha.
- Fique só por mais alguns minutos. Até que você consiga enxergar os portais das jabuticabas.
- Não! Tenho que levar-lhe ao casarão no horário delimitado. Já esqueceu da surra de vara? Não queira levá-la outra vez - disse em tom desesperado - Mesmo porque mamãe não é de brincadeiras.
- Mas e as jabuticabas?
- Pedro!
- Ana!
- Olhe, va lá, mostre-me essas jabuticabas, portais, seja lá o que for!
O menino foi se esquivando dos pequenos gravetos no chão. A grama alta o impedia de correr com mais velocidade. Pegou um graveto do chão, apontou-o em direção às jabuticabas do pé e chamou a irmã:
- Venha! Veja!
Ana dirigiu-se ao pé das frutinhas negras e ficou plantada ali olhando.
- Não estou vendo nada!
Olhou para os lados e o irmão ja corria a muitos metros a frente.
- Pedro!
E o menino subiu a encruzilhada rindo, fazendo fuscas de zombaria.
Rafael Villas Boas
domingo, 20 de março de 2011
Nos tempos da Coroa.
Meu pai vivia dizendo que tocava a economia da fazenda afã de mim e minha mãe; o que me intrigava era que, para ele, nada mais importava se não o desejo de tornar-se cada vez maior e mais poderoso. Havia mês que eu não o via, visto que sempre estava viajando a negócios. A Inglaterra já se tornara seu ponto de passeio; vivia buscando novas formas de comercialização em outros países, até mesmo no território da coroa.
Ficávamos em casa, minha mãe, a Mucama, um negrinho - que apelidávamos de Torim - e eu. Os negros que viviam na Casa Grande só estavam ali por ordens de meu pai, se não as tivesse o feitor jamais permitiria na ausência do senhor.
Mas ainda havia muitos atos que a mim desagradavam: negros eram surrados por ali, açoitados até a morte; comiam mal, dormiam de forma péssima, sequer poderiam chamar de lar o local em que viviam. Os privilegiados eram só a Mucama, que cosia, costurava e era o braço direito de minha mãe, e o danado do Torim, que odiava meu pai de forma decidida.
Certa vez quase foi para o tronco, com outros seis escravos, o Torim, que afrontara o feitor corajosamente. Minha mãe interviu, competente, e nada aconteceu.
É certo que eu jamais quero seguir os negócios de meu pai. Não quero ser senhor de ninguém, bem como ser o mandante de surras e açoitamentos. Se fazendeiro for, então serei da minha forma. Pagarei pelos serviços prestados, contratarei trabalhadores que recebam pelo seu esforço.
Em tempos como estes, meus ideais são repulsivos, doravente farei o possível para reformar nossa política.
Ainda haverá o dia em que muitos irão se alegrar com a abolição da escravatura, que, assim espero, logo virá.
Rafael Villas Boas
sábado, 19 de março de 2011
terça-feira, 1 de março de 2011
Desabafos de Thomas / 2
Londres, 18 de fevereiro de 2011
Mãe,
é com grande pesar que lhe escrevo. As coisas por aqui têm estado um tanto remotas com sua ausência. Desde o dia em que você saiu, não consegui me virar aqui em casa.
O telefone não me descansa um segundo sequer; seus clientes ligam a intervalos regulares, ansiando por notícias – é claro que não disse a eles que você me abandonou. Seria no mínimo anti-ético.
Não consigo, ao menos, preparar meu café da manhã, e por vezes a fome me coroe durante horas, mas isso não vem ao caso, não quero preocupá-la. Não me importo que meus pães sempre queimem na sanduicheira ou que o suco que preparo mais parece uma água doce colorida, pois o que realmente me faz falta é você.
Ah, já ia me esquecendo: Gerard, o nosso cãozinho, está dormindo no tapete da sala de visitas. Achei que não haveria problemas, uma vez que o pobrezinho arranhava a porta desesperadamente, querendo entrar.
Briguei na escola. A professora me repreendeu severamente e me suspendeu por três dias, não é o máximo?
A cada dia que passa, risco um número no calendário, assim posso contar os minutos para sua chegada.
Bem, espero que não tenha lhe deixado aborrecida ou preocupada. Peço que aproveite ao máximo seus últimos dias de férias.
Já contei que aquela sua coleção de jarras escocesas quebrou? Mas deixa isso pra lá, quando você chegar a gente conversa.
( Rafael Villas Boas)
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
e ainda me perguntaram...
Qual o motivo da pergunta? Nem mesmo a sinhá valoriza meus versos... tampouco a velha fiandeira que mora aos fundos, no quintal das laranjas.
Devem se interessar no dinheiro que ganham os escritores, poetas; o Barão e a Baroneza de outrora cobiçavam os versos de Maria e Caipora, hoje nada mais existe se não o desejo do deslumbre e brilho social.
De mim se aproximam com marejo nos olhos, esperando que da ponta do lápis escorregue alguns vocábulos organizados. Mas assim não o farei, pois do meu orgulho dependo e meu talento defendo; não vendo.
Papeis à mesa, xícara ao lado e cabeça engrenando. è assim que vivo, é assim que me contenho. Afinal, onde estiverem o meu orgulho, meu talento e meu desejo, eu ali estarei. E não descançarei.
Rafael Villas Boas
domingo, 20 de fevereiro de 2011
arabella
Todos na rua já sabiam quais eram minhas intenções para com ela, e mesmo assim a danada fazia-se de difícil e torcia o nariz todas as vezes em que eu passava.
À noite, quando as belas moças iam para a praça do chafariz, Arabella trancafiava-se dentro de casa, temendo me ver, sozinho, vagando sob as chamas bruxuleantes dos lampiões da rua.
Os dias foram passando, assim como as noites. Algo batia intensamente em meu peito, exigindo justificativas, mesmo que estas fossem efêmeras, porém nada fazia alusão à ignorânica e preponderânica de Arabella. O próprio pai da moça ja viera falar-me, manifestar sua aprovação à circunstância, mas de nada adiantou.
Em todos os dias que se seguiram eu continuei perambulando frente à janela, e logo depois ia até a farmácia conversar com o pai da moça. As conversas eram sempre duradouras e ricas, cheias de incentivos da parte dele.
Chegou a um ponto em que meu ego estava esgotado do sofrimento e do desejo que sempre ardia em meu cérebro. Tomei uma decisão: mudaria de cidade para distanciar-me de Arabella. E assim fiz.
Me estabeleci em um vilarejo longíncuo, mas populoso. Tudo era muito espesso e avantajado (árvores, pássaros, casas, moças...)
Fui logo procurar um emprego e fiquei sabendo por fontes desconhecidas que havia chegado na vila um casarão boticário - ou em melhores palavras: uma farmácia. Apresentei-me então logo pela manhã do dia seguinte e levei um susto. Uma mulher de cabelos negros e brilhantes mantinha-se parada atrás do balcão de forma prontificada; Arabella me lançou um olhar e sorriu de forma displicente.
Desmaiei e acordei algumas horas depois em uma enfermaria local.
- É um excelente casarão boticário, não acham? - diziam várias mulheres carpideiras, nas semanas que se arrastaram - A cidade realmente precisava de maiores benefícios.
Meu sofrimento começara novamente. E eu nada poderia fazer.
Rafael Villas Boas

