terça-feira, 1 de março de 2011

Desabafos de Thomas / 2

Londres, 18 de fevereiro de 2011

Mãe,

é com grande pesar que lhe escrevo. As coisas por aqui têm estado um tanto remotas com sua ausência. Desde o dia em que você saiu, não consegui me virar aqui em casa.

O telefone não me descansa um segundo sequer; seus clientes ligam a intervalos regulares, ansiando por notícias – é claro que não disse a eles que você me abandonou. Seria no mínimo anti-ético.

Não consigo, ao menos, preparar meu café da manhã, e por vezes a fome me coroe durante horas, mas isso não vem ao caso, não quero preocupá-la. Não me importo que meus pães sempre queimem na sanduicheira ou que o suco que preparo mais parece uma água doce colorida, pois o que realmente me faz falta é você.

Ah, já ia me esquecendo: Gerard, o nosso cãozinho, está dormindo no tapete da sala de visitas. Achei que não haveria problemas, uma vez que o pobrezinho arranhava a porta desesperadamente, querendo entrar.

Briguei na escola. A professora me repreendeu severamente e me suspendeu por três dias, não é o máximo?

A cada dia que passa, risco um número no calendário, assim posso contar os minutos para sua chegada.

Bem, espero que não tenha lhe deixado aborrecida ou preocupada. Peço que aproveite ao máximo seus últimos dias de férias.

Já contei que aquela sua coleção de jarras escocesas quebrou? Mas deixa isso pra lá, quando você chegar a gente conversa.



Thomas Harrison
( Rafael Villas Boas)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

e ainda me perguntaram...

E ainda me perguntaram por que eu queria ser escritor.
Qual o motivo da pergunta? Nem mesmo a sinhá valoriza meus versos... tampouco a velha fiandeira que mora aos fundos, no quintal das laranjas.
Devem se interessar no dinheiro que ganham os escritores, poetas; o Barão e a Baroneza de outrora cobiçavam os versos de Maria e Caipora, hoje nada mais existe se não o desejo do deslumbre e brilho social.
De mim se aproximam com marejo nos olhos, esperando que da ponta do lápis escorregue alguns vocábulos organizados. Mas assim não o farei, pois do meu orgulho dependo e meu talento defendo; não vendo.
Papeis à mesa, xícara ao lado e cabeça engrenando. è assim que vivo, é assim que me contenho. Afinal, onde estiverem o meu orgulho, meu talento e meu desejo, eu ali estarei. E não descançarei.


Rafael Villas Boas

domingo, 20 de fevereiro de 2011

arabella

Já se passara quase um mês e eu ainda perambulava por aquela rua acidentada, esperando que a moça voltasse a se mostrar na janela. Mesmo depopis deste período, eu não conseguira sequer uma piscadela reprimida, um sorriso maroto que fosse; ainda assim não desisti.
Todos na rua já sabiam quais eram minhas intenções para com ela, e mesmo assim a danada fazia-se de difícil e torcia o nariz todas as vezes em que eu passava.
À noite, quando as belas moças iam para a praça do chafariz, Arabella trancafiava-se dentro de casa, temendo me ver, sozinho, vagando sob as chamas bruxuleantes dos lampiões da rua.
Os dias foram passando, assim como as noites. Algo batia intensamente em meu peito, exigindo justificativas, mesmo que estas fossem efêmeras, porém nada fazia alusão à ignorânica e preponderânica de Arabella. O próprio pai da moça ja viera falar-me, manifestar sua aprovação à circunstância, mas de nada adiantou.
Em todos os dias que se seguiram eu continuei perambulando frente à janela, e logo depois ia até a farmácia conversar com o pai da moça. As conversas eram sempre duradouras e ricas, cheias de incentivos da parte dele.
Chegou a um ponto em que meu ego estava esgotado do sofrimento e do desejo que sempre ardia em meu cérebro. Tomei uma decisão: mudaria de cidade para distanciar-me de Arabella. E assim fiz.
Me estabeleci em um vilarejo longíncuo, mas populoso. Tudo era muito espesso e avantajado (árvores, pássaros, casas, moças...)
Fui logo procurar um emprego e fiquei sabendo por fontes desconhecidas que havia chegado na vila um casarão boticário - ou em melhores palavras: uma farmácia. Apresentei-me então logo pela manhã do dia seguinte e levei um susto. Uma mulher de cabelos negros e brilhantes mantinha-se parada atrás do balcão de forma prontificada; Arabella me lançou um olhar e sorriu de forma displicente.
Desmaiei e acordei algumas horas depois em uma enfermaria local.


- É um excelente casarão boticário, não acham? - diziam várias mulheres carpideiras, nas semanas que se arrastaram - A cidade realmente precisava de maiores benefícios.

Meu sofrimento começara novamente. E eu nada poderia fazer.


Rafael Villas Boas

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

café

Café com pão, café com leite
Café de dia, café à noite;
Pita um toquinho e la vai bebericar o colonial ]
Torrado no, arado, terreiro ensolarado
Dentro do saco ou na xícara
Café.
Café com pão, café com leite
Café de todo dia,
Café que eu já sabia.

Rafael Villas Boas

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Caminhos tortuosos.

Passei por encostas e morros
Andei por trilhas e caminhos tortuosos
Porém nenhum foi tão árduo
quanto o vale da morte
Cruel e lívido
Sombras escuras
Rios negros, árvores pétreas
Não havia sinal de vida
Não havia pássaros ou ou flores
Só havia dor e angústia
Percebi que um ser me seguia
Corria ao meu encalço
Tropecei
Caí, mas levantei
e Segui sozinho,
procurando alternativas para uma fuga
Percebi que não seria difícil escapar
Corri de forma voraz
O ser já não me seguia mais



Rafael Villas Boas

the marauders map

"Eu
juro
solenemente
que
não
pretendo
fazer
nada
de bom"

( The Marauders Map/ Harry Potter - A Magia do Cinema)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Desabafos de Thomas / 1

Dezembro chegou frio e gelado. A escola primária de Northcole, assim como as demais da Inglaterra, anunciaria, em breve, as ansiadas férias de natal. Estávamos todos muito eufóricos para ficarmos longe de Northcole por um tempo; passados alguns longos dias de ansiedade, as férias, por fim, chegaram.
Era possível ver inúmeras crianças correndo das grandes portas de carvalho da escola em direção aos pais que ja aguardavam-nas do outro lado da rua. Ouviam-se comentários tagarelas sobre o que fariam nas férias e olhadelas fugazes para o prédio branco que haviam deixado para trás.
A primeira temporada de neve chegou, e eu - com mais alguns amigos de Northcole - reunímo-nos nos jardins de minha casa para fazer grandes bonecos de neve, fortes e salientes. Porém isto foi mudando com o passar dos dias, pois a neve alcançou volumes extremos e a população foi quase obrigada a desenterrar seus automóveis da montanha de gelo que cobria as ruas, e que agora era frequente.
Pronto: minhas férias ja haviam começado de modo não muito agradável.
Certa noite, depois do natal, minha mãe informou-me que eu iria passar uma temporada no campo, com minha tia Maggie. Adorei a ideia, e alguns dias depois lá estava eu, no campo, entediado.
Minha tia Maggie não me deixava fazer patavinas! Pedia para brincar de corrida com seu carro de verdade e ela não deixava; fazer fogueirinha com os móveis da sala: Não; brincar de dominó com as teclas do piano: a resposta sempre a mesma - não, não e NÃO!
Passei o resto dos dias de frente para a lareira que nunca parava de crepitar. Tomava várias xícaras de chocolate, comia várias tortinhas recheadas e me empanturrava com tudo que a Tia Maggie me oferecia.
Bom, como tudo que existe, as férias um dia acabaram, e eu logo voltei para casa. O primeiro dia de aula do trimestre estava muito próximo.
Quando finalmente as aulas começaram, todas as crianças de Northcole comentavam, felizes, seus atos heroicos e brincadeiras extravagantes de que haviam participado durante as férias. Eu, Thomas Harrison, porém, não poderia relatar muitas coisas, pois, afinal, não me deixaram fazer quase nada.
Já contei que minha tia Maggie não me deixou brincar de cabo-de-guerra com os lençóis do quarto de hóspedes?



Rafael Villas Boas